Entrevista ao Correio de Lagos

CORREIO DE LAGOS – O Bloco de Esquerda só à última da hora é que decidiu apresentar a sua candidatura à Câmara de Lagos. Foi por custar muito a ser convencida ou por não ter sido a primeira escolha?
VERA GONÇALVES – Posso afirmar que entregamos a nossa candidatura no tribunal dentro dos prazos que a lei determina. Tudo foi aceite e estamos muito contentes por isso.
C. de L. – As vossas listas privilegiam a gente mais jovem ou têm pessoas de todas as cidades?
V. G. – Há um bom grupo de malta nova. Mas há pessoas de várias idades. Todos possuem um espírito jovem e muita vontade política. Em termos profissionais, contamos com professores, empresários, universitários, artistas , com gente muito variada.
C. de L. – Já mantinha, antes, algumas afinidades com o Bloco de Esquerda ou foi o convite de algum amigo desta força política que a convenceu a abraçar este desafio?
V. G. – A política sempre fez parte da minha vida. Nem sempre se é activo em termos políticos. Mas pode-se manter essa relação de uma outra forma. O meu bisavô, lutou pela República. A minha mãe no PCP. E eu, a partir de 1972, comecei a ter uma actividade partidária, num dos partidos que deu lugar, mais tarde, ao Bloco de Esquerda.
C. de L. – Quem, de perto ou de longe, acompanha o percurso de vida de Vera Gonçalves, sente-a excessivamente fechada no mundo da sua criação artística. Como é que vai conseguir dar a volta e inserir-se neste meio tão conturbado em que se movimenta o mundo da política?
V. G. – Não me revejo nada nessa imagem que acaba de traçar. Penso que sempre fui uma pessoa muito activa. Quando vim para Lagos, ainda como estudante de Belas Artes, trazia comigo um projecto; o de participar numa cooperativa com outros estudantes e com João Cutileiro. Chamámos-lhe “Útil Pedra”. Além de ser estudante, participava numa actividade que tinha a ver com uma indústria criativa. Em termos sociais, posso dizer que foi no meu tempo que se desenvolveu a primeira associação de pais da E.B. 2,3 nº1. Sempre participei, como delegada dos pais, na Escola Secundária. Fui ainda sócia fundadora do LAC (Laboratório de Artes Criativas) e aí passei horas e horas a trabalhar em projectos líder para se arranjar dinheiro para recuperar a cadeia e a por a funcionar. Dirigi durante 12 anos uma loja onde muitos artistas passaram e que vinha nos roteiros estrangeiros sobre a cidade de Lagos. Paralelamente a tudo isto, fui uma mãe presente. Desenvolvi o meu trabalho de escultora com tudo o que isso pressupõe de contactos necessários para se fazer exposições e para desenvolver este projecto de vida. Não me revejo por isso, nada, nesse quadro romântico de vida.
C. de L. – Mas, no seu caso concreto, o facto de viver um pouco isolada em Espiche não lhe cria essa imagem algo romântica com que é vista um pouco à distância?
V. G. –Não me revejo nesse quadro romântico da artista.
C. de L. – Mais do que uma candidatura simbólica, a de Vera Gonçalves procura dar resposta a 17,43% e fidelizar, na sua pessoa, os votantes do Bloco de Esquerda de Lagos?
V. G. – Não encaro, de forma nenhuma, esta candidatura como simbólica. Encaro-a como uma candidatura de um partido que quer ser a terceira força do país. Não se trata de uma candidatura simbólica mas de uma candidatura a sério.
C. de L. – Luta por ser essa terceira força política em Lagos?
V. G. – Claro que sim.
C. de L. – Um dos bastiões do Bloco de Esquerda parece ser a gente mais jovem. Que ligação mantém à juventude de Lagos para os poder cativar e para não deixar fugir o seu voto para outras candidaturas?
V. G. – Quando nos estamos a candidatar à Câmara de Lagos, estamos a propor a nossa candidatura a todas as pessoas do concelho. O Bloco tem apoio de todos os estratos da nossa população. Dirigimo-nos a todas as idades. É natural que a juventude se reveja no Bloco, é um partido que fala de problemas actuais, de problemas modernos que estão muito próximo dos jovens, é natural essa ligação. O programa que vamos apresentar contém uma grande preocupação com a juventude de Lagos, que bem necessita de ser acarinhada.
C. de L. – Quer dizer que não o tem sido por este executivo?
V. G. – Não quero entrar por aí. Temos as nossas ideias e queremos apresentá-las. E aí estamos para as discutir. Não se trata de uma candidatura contra ninguém. É uma candidatura pelas ideias no Bloco de Esquerda e pelo voto no Bloco de Esquerda.
C. de L. – Para além da gente mais jovem, vão privilegiar alguns sectores sócio profissionais ou a vossa campanha dirige-se a todas as franjas populacionais?
V. G. – Dirige-se a todas as franjas e principalmente aos desempregados. Ao longo da região, há hoje em dia, um desemprego, que abrange todos os sectores. Já não podemos dizer que são apenas sectores pouco qualificados. Todos são abrangidos. Em Julho, o desemprego no Algarve aumentou para o dobro. São números assustadores. E isto acontece, apesar do betão continuar a subir e a dar cabo da nossa paisagem. Está visto que o betão, ao contrário do que se pode pensar, não resolve o problema do desemprego. É preciso criar outras alternativas e diversificar a nossa economia. O bom senso diz-nos que devemos mudar de caminho. Dar lugar a pequenas iniciativas individuais como o auto-emprego, o fomentar empresas criativas, empresas de reabilitação urbana qualificadas, desenvolver o turismo de natureza e o turismo cultural, fomentar actividades que não estejam ligadas só à sazonalidade. Mas, ao longo do tempo, tem-se apostado sempre na sazonalidade. Para além do verão, no Algarve também existe Primavera, Outono, Inverno. É por isso que dizemos que é fundamental criar práticas de emprego que sobrevivam ao calor do verão.
C. de L. – Apostaria num turismo diferente?
V. G. – Apostaria, essencialmente, num turismo responsável.
C. de L. – Significa que, para si, a associação que tem vindo a ser feita do turismo de betão não é o caminho?
V. G. – Esse, já não é o caminho. O caminho é, o de saber utilizar os valores ambientais, culturais e humanos.
C. de L. – E como é que associa a criação de emprego à preservação dos nossos valores patrimoniais e paisagísticos?
V. G. – Hipotecar e destruir a nossa paisagem é aniquilar a possibilidade de um turismo de natureza, de um turismo cultural. Repare , os resorts fechados em si mesmos que tudo oferecem dentro das suas paredes, estimulam a cidade ?tem que se reabilitar o património, libertar a orla marítima do betão , formar guias do património e da natureza, dar a conhecer a gastronomia, os criativos do concelho, cada vez mais ,só seremos visitados por oferecer produtos inimitáveis.
C. de L. – Como é que se propõe inverter este modelo de desenvolvimento?
V. G. – Este modelo, que se vê em Benidorme e em alguns pontos do Algarve, já é conhecido, não podemos continuar a manter os erros do passado.
C. de L. – Para encabeçar uma alternativa política à Câmara de Lagos é porque não se revê no actual poder. Afinal, o que é que mais fere a sua sensibilidade e que procura fazer diferente?
V. G. – Queremos um rumo para a política diferente em vários sectores. Desde logo, nós Bloco de Esquerda, começaríamos em Lagos por implementar o orçamento participativo. Já existe em muitos outros concelhos do País. Consiste em chamar os cidadãos a participarem na definição das prioridades do orçamento Municipal. Trata-se de uma atitude que chama à participação, à democrática e à transparência.
C. de L. – Em sua opinião, esta Câmara terá fomentado a participação ou, pelo contrário, tem procurado pôr de pé mecanismos tendentes a concentrar ainda mais o poder ?
V. G. – Não sinto, de forma nenhuma, que a participação tenha sido incentivada. O poder das maiorias é sempre fechado a outras participações. Candidatamo-nos por achar necessário outras vozes para os destinos do Concelho.
C. de L. – Pretende, então, combater o actual poder, não através de uma crítica directa, mas de propostas que pretendam fazer como a de uma maior participação dos cidadãos. Para além do orçamento participativo, que outras medidas pretendem pôr em prática?
V. G. – O caminho da participação e defesa do património é importante na vida de uma cidade. Não são necessários mega projectos, mas sim começar por arrumar a casa, reabilitar o centro histórico. Criar cursos de formação e pequenas empresas especializadas em técnicas de reabilitação. Com os espaços reabilitados, criar uma bolsa de arrendamento, habitações e estabelecimentos a custas controlados .Assim será possível alugar a preços justos, rejuvenescendo, dando espaço a pequenos comércios, novas oportunidades, fazer com que a vida de todos os dias aí regressasse de novo.
C. de L. – Não se revê, então, neste conjunto de obras que se têm vindo a pôr de pé nem as encara como um sinal de modernização, de um dinamismo invulgar e, como tal, para si, não são dignas de elogiar?
V. G. – As obras que têm vindo a ser realizadas têm descapitalizado a Câmara, e por isso se encontra numa situação difícil. Esqueceram-se da crise e da contenção orçamental. Estou a prever que abram a mão às facilidades de construção uma vez que os dinheiros da Câmara vem dos impostos sobre os imóveis.
C. de L. – Concorda, então, com a alteração da lei das finanças locais retirando qualquer financiamento das Câmaras da construção e fazendo depender o orçamento das Câmaras apenas das transferências que lhe deveriam vir do Estado?
V. G. – Cada concelho, de acordo com as suas necessidades, deveria ser financiado pelo Orçamento da Região. Estaríamos perante uma situação bastante mais justa, mais solidária, e acabava-se com a especulação.
C. de L. – Que outras situações privilegiaria que, em seu entender, não têm sido tidas em consideração pelo actual poder?
V. G. – Privilegiamos no nosso programa as pessoas. E começamos pela juventude que vai estudar para fora e que aqui não volta a ter lugar. Estamos numa cidade que perde a sua maior riqueza, os jovens acabados de formar. Os idosos que vivem em condições precárias, vendo o seu Algarve ser devassado, sendo muitas vezes obrigados a vender o seu património para conseguirem sobreviver. Assistimos ainda a grandes assimetrias de vida entre o litoral e o interior, até falamos de espaços curtos, como de três ou quatro quilómetros, é a diferença entre viver à beira mar e um pouco mais para dentro. É importante termos um concelho e uma autarquia virada para das pessoas, possibilitar que vivam onde querem viver.
C. de L. – Como artista que é, como é que encara, em termos estéticos e funcionais, o novo projecto da Câmara acabado de construir?
V. G. – Em termos estéticos, falamos de um edifício moderno. Em termos de conceito, falamos de um edifício antigo, não é um edifício do sec. XXI. Não teve em conta nenhuma preocupação ambiental. O Bloco de Esquerda defende a utilização de painéis solares em todos os edifícios públicos recém construídos. Como é que os governantes apelam à utilização de energias alternativas se eles são os primeiros a não darem o exemplo?
C. de L. – É natural que já lhe tenham chegado os ecos que a sua candidatura, pelo Bloco de Esquerda, está a ter no interior das restantes forças políticas de Lagos. Que ecos é que, afinal, lhe têm chegado?
V. G. – Francamente, tenho ocupado o meu tempo a definir o programa de candidatura com o grupo de candidatos do Bloco de Esquerda, e a ouvir pessoas que nos vêm dar a suas opiniões e ideias.
C. de L. – Qual a opinião que tem dos diferentes cabeças de lista que, consigo, disputam estas autárquicas em Lagos?
V. G. – São cidadãos de Lagos com quem convivo e respeito. Quando estiver completamente inteirada dos respectivos programas é que me irei pronunciar.
C. de L. – A partir do momento em que aceitou esta candidatura, a sua vida sofreu profundas alterações ou tudo continua a correr como dantes?
V. G. – A minha vida profissional continua a correr como dantes. Paralelamente, faço parte de um grupo, que ao candidatar-se à Câmara de Lagos discute problemas da autarquia. É muito interessante estar a trabalhar com pessoas para as pessoas, é gratificante. No fundo, é também isso que tenho feito no meu trabalho de escultora.
C. de L. – Dizia, há uns tempos atrás, uma força política de Lagos que o Bloco de Esquerda tinha responsabilidades em concorrer. Outra, pelo contrário, sentia algum temor. Estes posicionamentos tiveram alguma influência ou a vossa candidatura está completamente desligada de outras pressões e, mesmo, de quaisquer sugestões?
V. G. – É urgente que o Bloco apareça na vida política de Lagos. Com o Bloco aparecem outras ideias e outra maneira de pensar a política para Lagos.
C. de L. – Sente-se completamente à vontade em defender as teses do Bloco de Esquerda perante as outras forças partidárias se algum debate público se vier a organizar?
V. G. – Sinto-me perfeitamente à vontade desde que cada um fale das suas ideais e as exponha civicamente.
C. de L. – Qual é a sua opinião sobre o fenómeno da política de Lagos?
V. G. – Entendo a política como um trabalho a realizar pelos cidadãos para resolver problemas da sociedade e, sobretudo, para não criar problemas. Penso que a política não é um fenómeno. É um trabalho natural que as pessoas devem desenvolver para encontrar novos caminhos.
C. de L. – Nunca sentiu nenhuma pressão, por parte de alguma força política para vir a desistir ou, pelo contrário, sentiu já incentivos para se decidir a avançar?
V. G. – Tem sido um percurso tranquilo.
C. de L. – À primeira vista, vemo-la sem tropas e sem meios para fazer face a uma campanha como a que se prepara para enfrentar. A que meios e a que recursos humanos vai deitar mão para enfrentar esta eleição?
V. G. – Ainda bem que os partidos não trazem tropas para as campanhas. Estamos em democracia. Isto é uma candidatura do Bloco de Esquerda, de um partido com assento na Assembleia da Republica e no Parlamento Europeu, temos por isso todos os apoios do Partido.
C. de L. – O que é que significa um bom resultado para si?
V. G. – Um bom resultado é por uma nova geração no executivo da Câmara. Uma geração atenta e aberta a um mundo global e não a um mundo fechado. Será um grupo com ideias e com vontade de fazer coisas. Será, sobretudo, uma nova geração de pessoas que quer entrar e participar nos destinos do concelho.
C. de L. – Isso significa ficar com uma presença na Câmara?
V. G. – No executivo e na Assembleia Municipal.
C. de L. – Se for eleita vereadora, vai respeitar esse mandato e levá-lo até ao fim?
V. G. – Com muito prazer.
C. de L. – Depois das eleições, independentemente dos resultados, vão construir uma espécie de corpo político para dar continuação ao trabalho que vão iniciar ou tudo se vai esfumar como há quatro anos atrás até que um novo acto eleitoral acabe por aparecer?
V. G. – Como vai entrar gente do Bloco para a Assembleia e para a Câmara é evidente que o trabalho vai continuar.





