Entrevista ao Correio de Lagos (8.10.09)
C.L. O Bloco de Esquerda apresenta-se com um conjunto de pessoas que, pelo que é conhecido, nunca tiveram qualquer relação com o fenómeno da política de Lagos. Trata-se de uma vantagem ou de um benefício?
Encaramo-lo inequivocamente como uma vantagem. As pessoas que constituem a lista do Bloco de Esquerda têm ideias muito claras sobre o que desejam para o concelho em que nasceram ou onde vivem por opção .São pessoas perfeitamente informadas e conscientes de como têm sido geridos os bens públicos do concelho. Candidatamo-nos, com o princípio de que é urgente e necessário que se façam ouvir outras vozes para os destinos do Concelho. Estamos convictos de que é do contentamento geral ver surgir cidadãos a quererem participar.
C.L. O facto deste conjunto de candidatos serem maioritariamente recrutados na classe de professores pode indiciar que o Bloco de Esquerda teve dificuldades em penetrar no tecido social, económico e cultural da cidade de Lagos. Não acaba, por isso, por ser uma lista pouco representativa da sociedade lacobrigense?
Na verdade a sua constituição foi um processo muito natural, informal e espontâneo. Evidentemente que se gerou num círculo de pessoas mais restrito, que tinham por hábito conversar e discutir ideias, mas rapidamente esse movimento inicial se alastrou, estendendo-se aos mais jovens e a outras actividades profissionais.
C.L. Pelo que se tem visto, a lista do Bloco de Esquerda, concorrente aos dois órgãos autárquicos de Lagos, poucos sinais tem dado de si. É sinal de que aposta mais no descontentamento do que numa proposta concreta que tenha para oferecer ao eleitorado?
A campanha do Bloco de Esquerda tem sido uma campanha pela positiva. Obviamente que não temos os meios e recursos que têm outras formações partidárias mais instaladas no Concelho, mas temos um muito visitado blogue, http://blocoesquerdalagos.wordpress.com/ , onde apresentamos o nosso programa e artigos de opinião escritos por nós e pelos cidadãos que nos queiram escrever. Fizemos a nossa apresentação pública, que foi sala cheia na Cafetaria do Centro Cultural de Lagos, temos saído à rua, distribuído folhetos e temos mais acções de campanha previstas para os próximos dias.
C.L. Não temem que, sem a presença figura do vosso líder nacional, que funciona como uma espécie de abono de família para o Bloco, acabem por vir a ser penalizados devido a serem pouco conhecidos na sociedade lacobrigense?
De forma alguma. O lançamento da nossa candidatura contou com a presença do deputado europeu Miguel Portas, que manifestou o total apoio, político e mesmo pessoal, à candidatura, o que muito nos orgulha. Temos todo o apoio do Bloco de Esquerda em todos os níveis, regional e nacional. E não consideramos que o líder do Bloco de Esquerda funcione como “uma espécie de abono de família”.
C.L. Embora só agora tenham chegado ao campo da luta partidária, é natural que tenham feito algum trabalho de casa e que se tenham inteirado de alguns aspectos de debate política local como o que aponta para uma situação intranquila das finanças da Câmara Municipal. Em vosso entender, essa situação pode comprometer ou não as obras em curso?
Não é, como dissemos, necessário pertencer a nenhuma força político-partidária para saber que a Câmara Municipal de Lagos se esqueceu da crise, da necessidade de contenção orçamental, e decidiu realizar obras megalómanas contando com a galinha dos ovos de oiro da economia algarvia do século XX. Agora as receitas são outras, e a Câmara encontra-se endividada. Essa situação vai exigir do novo executivo um cuidado na definição das prioridades do Concelho que este executivo não soube ter.
C.L. Se, porventura, tivessem que deixar para trás algumas obras que se estão a realizar, quais as que privilegiariam e quais as quer dariam continuidade?
A palavra obra já cansa no Algarve, só se sabe falar de obras.
C.L. Outro dos temas que tem provocado alguma discussão e que foi objecto de alguma contestação tem a ver com as empresas municipais. Em vosso entender, representam ou não uma visão moderna e eficaz da gestão municipal?
As empresas municipais são como uma empresa que o pai (CML) dá ao filho (um AMIGO) recheada de um bom capital para ele desenvolver as suas acções, ao mesmo tempo que lhe garante um bom ordenado.
Quando a coisa corre mal, e o saldo é negativo, o pai (CML) paga os enganos do filho, e tudo continua a andar. A “obra” desta edilidade que maior preocupação nos causa é a criação das empresas municipais, deficitariamente geridas e que apenas contribuíram para hipotecar as contas públicas locais e adensar o clientelismo local.
C.L. As actuais empresas municipais estão a agravar ou a aligeirar a situação financeira da Câmara?
Não entendo como podem aligeirar.
C.L. Têm também consciência que, sem a empresa municipal FUTURLAGOS, não seria possível a construção do novo edifício da Câmara nem os parques de estacionamento subterrâneos em curso.
Intitulada “Futurlagos Empresa Municipal para o Desenvolvimento”, com esta E.M., mais uma vez, desenvolvimento é sinonimo de construção.
C.L. A atenção ao Centro Histórico começou já a entrar no vocabulário político da candidatura do Bloco de Esquerda de Lagos. Nas actuais circunstâncias, como é que o Bloco deitaria mãos à recuperação do Centro Histórico?
O Centro Histórico está a sofrer um novo terramoto como o de 1755, mas desta vez, pela mão do homem, deitam-se a baixo quarteirões. É urgente salvaguardar a história. Para isso propomos iniciar um levantamento com profissionais conhecedores da cultura do Concelho, onde haja lugar para uma dinâmica participada, um serviço educativo e formação especializada nas técnicas necessárias à reabilitação. Os espaços reabilitados deverão servir para criar uma bolsa de arrendamento que disponibilize casas e estabelecimentos a preços acessíveis, dinamizando assim a vida com a juventude no Centro Histórico.
C.L. O parque de estacionamento subterrâneo da avenida, em construção, não é uma forma de remar contra essa desertificação que se está verificar do centro de Lagos?
A avenida terá uma função bem definida, passará a ser o percurso para um parque de estacionamento. De um lado, o pára-arranca para entrar, do outro, a saída. Serão 600 lugares em movimento e no meio uma ilha de esplanadas com nuvens de Co2. Já teve melhores dias esta avenida.
C.L. A construção massificante, bem visível em muitas das nossas cidades e vilas, está directamente relacionadas com a actual lei das finanças locais. O que é que pensa que se deveria fazer para inverter esta tendência.
Há que exigir a alteração à lei das Finanças Locais. Esse é, de resto, um ponto do nosso programa. Que os municípios deixem de ser financiados pela construção civil, através das licenças IMI e IMT, passando a receber um orçamento em função das necessidades da população, das carências e das necessidades de desenvolvimento.
C.L. Se, porventura, a construção deixasse de contribuir para o financiamento das Câmaras, situações parecidas com a entrada da Meia Praia ou Porto de Mós deixariam ou não de existir?
Com a alteração das leis das Finanças Locais que preconizamos, o desenvolvimento do Concelho deixaria de ser definido em função da construção. É natural que os interesses imobiliários perdessem algum poder relativamente ao poder político .
C.L. É a favor de se continuar com a actual expansão da cidade ou de a refrear e, em contrapartida, de consolidar muitas das suas zonas internas?
Chega de construção, há que arrumar a casa. Por mais que essa expressão possa, também ela, assumir-se como uma expressão em voga nos media nacionais, não há volta a dar. É preciso parar para pensar. Analisar aprofundadamente a herança que nos é deixada e então arrumar a casa.
C.L. Uma das apostas mais bem sucedidas do actual executivo tem acontecido ao nível do ensino. Mas ainda falta recuperar a Escola EB 2,3 nº 1 de São João. É a favor desta recuperação ou da construção de um novo edifício na zona do Estádio Municipal.
Parece-nos que a aposta do actual executivo foi não tanto no ensino, mas sim na criação de infra-estruturas de ensino. O que é preciso garantir é que essas infra-estruturas se traduzam numa real melhoria da qualidade de vida das famílias. Um factor de qualidade de vida é ter a escola dos filhos perto de casa, leva-los a pé, deixa-los ir a casa se não houver aulas, sabe-los acompanhados pela vida à volta da escola, os vizinhos, o comércio, a vida de todos os dias. Por outro lado, a má qualidade de vida é deixá-los no descampado, precisar de um carro para os ir buscar e levar, sabê-los sozinhos em sítio nenhum.
C.L. Se, porventura, se construísse uma nova escola junto ao estádio Municipal, seria a favor da alienação dos terrenos da Escola de São João?
Mais uma vez não são as pessoas que estão em jogo, mas sim o negócio de terrenos que dá jeito.
C.L. É a favor, a partir de agora, de uma aposta na tentativa de implantação do ensino, superior, em Lagos, ou no reforço ainda maior do pré-escolar?
Temos no nosso programa o alargamento da rede pública pré-escolar, bem como a necessidade de implementar a criação de contextos não formais de educação artística e cultural.
C.L. É a favor da viabilização do Fórum dos Descobrimentos, tal como tem vindo a ser apresentado, ou aposta noutro modelo?
A cidade dos Descobrimentos revê-se agora no desmantelamento da praça do Infante, A estátua que dominava aquele espaço foi arrumada a um canto e o mar de calçada portuguesa trocado por um lago com repuxos. Também o Infante D. Henrique já teve melhores dias em Lagos.
C.L. Quais seriam os principais sectores da actividade municipal que privilegiaria se viesse a ser poder?
Na relação com as actividades económicas e sociais do Concelho, entendemos que a actividade municipal deveria orientar-se para a sustentabilidade, quer no âmbito do ambiente, quer no âmbito cultural, seja ainda ao nível orçamental, e por uma igualdade entre todos os munícipes. Há que garantir que as linhas estratégicas chegam a todos e que todos têm iguais oportunidades.
Consideramos que os órgãos municipais devem contribuir para incentivar o turismo ecológico e cultural/histórico, não o de massas. Há ainda que reabilitar a agricultura e a pesca como actividades económicas de futuro, e não passado, explorando o mercado dos produtos locais. É preciso fomentar o local.
Aproveitar as infra-estruturas construídas, como o pólo tecnológico, e fazer uso real dele: incentivar a instalação de empresas de base tecnológica e ligadas às indústrias culturais.
C.L. E quais as linhas de orientação que gostaria de ver na gestão do município?
A transparência e a comunicação entre o executivo e a população, em vez da uma política prepotente, desligada dos potenciais existentes e virada para um visionarismo totalitário.
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