Uma cultura amarrada ao sistema
As iniciativas culturais assumem cada vez mais um papel importante na redefinição daquilo que convencionamos chamar de cultura portuguesa e na construção de hábitos culturais em locais onde, aparentemente, muitas vezes se entende existir um défice de oferta cultural.
Pontuadas algumas excepções, a cultura fora dos grandes centros de produção continua a fazer-se a reboque da acção autárquica e, na maioria dos casos, a fatigante dependência desse poder provoca atropelos e sobreposições de missões dos diversos agentes culturais.
Torna-se então frequente vermos as autarquias assumirem posições não só ao nível da difusão cultural e apoio à criação e produção artísticas, como também, muitas vezes de uma forma preocupante, chamarem a si a criação de estruturas de criação artística, que passam a funcionar ao abrigo de estreita ligação com o poder, numa pouco clara definição de como são criadas e qual o critério na atribuição das verbas e seu real retorno.
No caso concreto da cidade de Lagos, muito trabalho terá que ser desenvolvido para criar um concelho culturalmente rico. Não chega apoiar projectos ou mesmo potenciar grupos de criação sobre a guarda da autarquia, é necessário mapear as actividades de todos os agentes culturais do concelho e com eles desenvolver um plano de prioridades, que serão outras, talvez divergentes daquelas que se define como prioritárias nos meandros das políticas autárquicas.
Investe-se muito e avulso, como poderá ser analisado nas actas das reuniões de Câmara Municipal que constantemente atribuem apoios, mas pouco se conhece das condições e contrapartidas desses investimentos públicos.
Este tipo de problemáticas da esfera local aparece também nas estruturas ministeriais que tutelam a cultura. Nas capitais da cultura, quais os critérios na construção dos conteúdos programáticos e retornos para as populações? No caso da Faro Capital da Cultura, é evidente que pouco deixou ou quase nada, porque salvo algumas excepções da programação do cinema e de exposições, pouco se solidificou, na medida em que a filosofia importação não desenvolveu exportação, não fechou o ciclo. De facto, existem poucos organismos que desenvolvam um trabalho suficientemente forte, criando produções que permitam uma visibilidade de âmbito nacional, porém se não forem criadas as condições para o fortalecimento das estruturas já existentes e a criação de novos projectos, ficaremos numa redoma de interesse relativo que só serve aos que pretendem tirar proveito deste tipo de situações.
Numa altura em que os teatros políticos se aguçam nesta região algarvia, seria importante discutir o lugar da cultura no espaço público e se interessa ou não valorizar a participação dos artistas no processo de construção das cidades. Existirá na realidade uma valorização dos criadores por parte do poder político regional? As incitativas isoladas de apoio às artes no Algarve são na sua maioria inexistentes, mal concebidas e confirmam o abandono dos criativos, com uma direcção regional que trabalha para alimentar o seu micro sistema e constrói cada vez mais o investimento na incerteza e nas programações avulsas, que não contribuem para o desenvolvimento do tecido cultural da região. Podemos tomar como exemplo a falta de rigor e assertividade da Faro Capital da Cultura e olhando atentamente para o ALLGARVE, vemos uma espécie de “monstro” que suga uma verba considerável, que embora venha do Ministério da Economia é investido na cultura da região, sem uma política participativa dos agentes locais. Este facto é por demais grave, quando se sabe que o Director Geral das Artes assumiu publicamente que as verbas para a cultura do Algarve estão condicionadas devido ao grande investimento Allgarvio.
É por isso possível concluir que o facto de se envolver as autarquias não conduz necessariamente ao envolvimento da comunidade artística, pelo contrário. A falta de estruturas civis da região a trabalhar nestes projectos é avassaladora e só pode contribuir para a desvalorização de quem, nesta região, faz da arte uma profissão. Esta posição não quer dizer que tomemos uma posição regionalista, porém, sem demagogias, é preciso assumir que sem entrosamento e comunicação da esfera local com o mercado de arte nacional e internacional não existe desenvolvimento, o que torna ainda mais urgente investir na profissionalização das artes e da mesma forma criar planos de defesa do património artístico já edificado.
Túlio Barros
Lagos, Setembro de 2009






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