Lagos – Património Histórico e Natural em Risco
À cidade de Lagos, basta um turista mais atento e amante de longas caminhadas pelas intrincadas ruas da cidade para perceber que este destino turístico se podia dar a conhecer por muito mais do que as suas praias e o ambiente balnear e festivaleiro, vivido no centro durante pouco mais de dois meses por ano.
A costa, o mar salgado e espumoso, a areia dourada, a unidade hoteleira de grande dimensão e o empreendimento de amplos terraços e palmeiras verdejantes continuam a ser os principais e, porventura, únicos cartões de visita em que o município tem investido de forma padronizada nas ultimas décadas. E são bons, sem dúvida, mas actualmente não chegam, ou melhor, ficam abertamente aquém daquilo que novas massas de visitantes, viajantes e curiosos procuram nas suas férias e passeios.
A promoção do tríptico “sol+mar+praia” corre o sério risco, atendendo à situação de construção desregrada que se prolonga desde os idos anos 70/80 (e que lá podia muito bem ter ficado) porque aí teve o seu apogeu incontestado, de se assumir, ad eternum, como única imagem de marca do concelho, continuando lentamente a esvaziar a paisagem costeira e as zonas de sapal do seu carácter único e irrecuperável, proporcionado pela biodiversidade. E como uma política de genuína e cuidada preservação e, em muitos casos, recuperação dos patrimónios histórico e natural se vê nas tomadas de posição claras e corajosas de protecção, valorização e divulgação dos mesmos e não na constatação panfletária da sua existência. É urgente que Lagos deixe apenas de ser cidade histórica e de irrefutável beleza natural nas brochuras e nos livros, no posto de turismo, na internet e nas bocas de tanta gente, para o passar a ser nos olhos, no corpo e nos corações de todos os que escolhem aqui viver, seja permanentemente ou por uma quinzena.
A expressão “obras de fachada” nunca antes se aplicou de forma tão cristalina como à fonte “cibernética“(?) da frente ribeirinha ou à renovação da Praça do Infante, decerto já pisada por milhares de pessoas, a avaliar pelo negrume das lajes, de uma alvura imaculada no dia da inauguração.
De fachada, certamente, pois são a face visível, a superfície de um centro histórico de costas voltadas para tantas edificações centenárias como a própria muralha, a qual se apresentaria, porventura, mais merecedora das obras de requalificação em muitos dos seus panos, as ruínas do Convento da Trindade, sobrevivente de 1606, junto à praia de Santa
Ana e em estado de semi-ruína, desconhecido de tantos lacobrigenses, o forte de São Roque, estrutura de grande valor militar de finais do século XVII, hoje em estado de profunda degradação no areal da Meia Praia ou as ruínas da ermida de Santo Amaro, construção do século XIV.
Perante tamanha riqueza arquitectónica e histórica ao abandono,
é caso para pensar que, nem sempre a construção nova e fácil é sinal de modernidade, pois mais depressa se reconhece a qualidade do espaço urbano pelo cuidado e valor atribuídos à construção com história do que pela urgência de acrescentar estruturas sem atender a um contexto de verdadeira necessidade e sustentabilidade.
Carla Escarduça







