Obras de fachada

O actual investimento feito em Lagos na remodelação da grande avenida marginal é bem o reflexo daquilo que são as obras de fachada. Obras bem reais e que custaram caro aos contribuintes sem que, contudo, ofereçam reais mais-valias à cidade, à excepção das soluções de estacionamento criadas. Há apenas uma pretensão evidente de dar um ar “modernaço” a algo que apenas tem três décadas, com a agravante de sabermos que o recente projecto já tem uma década de elaboração. Evidentemente, não me insurjo contra a obra em si (à excepção de algumas opções), mas quanto ao facto de se gastar tanto dinheiro numa só operação urbana, que visa recuperar o que estava recuperado.

Infelizmente, à parte a redundância da obra, há a assinalar a destruição de património colectivo, nomeadamente na Praça do Infante D. Henrique. Aqui escolheu-se secundarizar a estátua do Infante, destruir a calçada com o tema “mar largo”, dos anos sessenta, e a remanescente calçada do século XIX, que compunha a antiga Praça da República, que se estendia paralela ao rio, entre a igreja de Santa Maria e o edifício do antigo mercado de escravos. Trata-se aqui de perdas efectivas de valores patrimoniais e culturais específicos. Onde estão os ganhos que justifiquem tão pesada intervenção? Querendo ser justo, elogio a coragem de pôr a muralha ribeirinha medieval a nu, juntamente com a rampa de acesso; e ainda toda a intervenção ao longo da muralha (Jardim da Constituição), com os caminhos naturalizados em terra batida e a escolha das oliveiras. Aí sim, valorizou-se e a cidade cresceu em património.

Todo o resto da obra, neste local, tem um sabor majestático despropositado, na amplitude dos espaços, no enorme “espelho”(?) de água com os inevitáveis esguichos cibernéticos, que rouba a ideia de praça ao lugar, e o triste pavimento da praça fronteira à igreja, que, apesar de tão recente, parece velho de eras, sujo e rachado.

Se a opção tivesse sido respeitar a memória do lugar, as preexistências que se acumularam, então teríamos a reconstituição da Praça da República, do séc. XIX, com as suas árvores, calçada, coreto e bancos arte nova, de pendor naduralista, semelhantes aos que ainda existem em Portimão, no Jardim Sárrea Prado, junto à estação de comboios; reporia o pelourinho (que dizem andar por aí nuns fundos esconsos) na calçada fronteira ao armazém regimental; e mantinha a Praça do Infante, com a amplitude imperial do Estado Novo e dos seus temas historizantes. Pelo meio, a separá-las, poríamos a descoberto a antiga muralha (que parece ter sido uma descoberta acidental das obras, apesar de todos saberem que elas lá estavam), com um tratamento mais rústico, baseado na visualização imediata da pedra aparelhada, evitando dar-lhe aquele ar argamassado com que ficou.

Entre esta proposta e o projecto implementado revelam-se duas diferentes opções que revelam duas formas de pensar a cidade e de vivê-la. Uma que é o modernismo de fachada, pensado em gabinete, e, uma segunda, que é a do respeito pelo passado, conciliando discretamente o passado no seu tecido.

Quem passear pelo interior de Lagos, com olhos de ver, sobretudo na zona entre muros, constatará a falta de sentido unificado na preservação do património. Aqui, o património entendido como conjunto, não existe. Não se identifica uma só rua com um conjunto edificado que represente um período histórico, ou, pelo menos, com mais de cem anos de existência. Em todo o lado, mesmo nas zonas mais insuspeitas, os anos 70 e 80 afloram com a sua má qualidade arquitectónica e desarmonia com a edificação tradicional envolvente. A partir dos anos 90, quando se começa a notar um pouco mais de cuidado na construção nova e nas “recuperações”, a traça e os materiais são de tal modo desvirtuados que criam mais ruído urbano. Depois, a este desalinho, juntam-se os edifícios devolutos, abandonados, decadentes, os espaços vazios, o abandono, a degradação generalizada.

O que se criou em Lagos nos últimos 40 anos não foi uma cidade que convive com e aproveita o seu passado histórico, foi antes uma cidade de pechisbeque, mediocremente modernaça e anónima, implantada em cima de uma malha urbana antiga e difícil. Não há dinheiro para recuperar? Há, mas onde se investem esses milhões? Precisamente para a “fachada” da cidade, que, diga-se, se encontrava em bom estado e podia esperar mais três décadas para ser alvo de uma séria intervenção. Entretanto, onde pára o núcleo histórico intra-muros?… No sítio mais óbvio: nas mãos dos especuladores e da desregulação das entidades gestoras locais, que parecem meros espectadores do planeamento urbano, e não aqueles que os elaboraram e têm o dever de o fazer cumprir. Lagos merecia mais e melhor!

David Roque

Professor de História

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