A Meia-Praia e os seus índios
Chego tarde a esta discussão, ou melhor, a esta decisão. Porque tudo já está definido. O PUMP – Plano de Urbanização da Meia-Praia não deixa margem para dúvidas: os residentes do Bairro SAAL – 25 de Abril vão ser realojados (art.36). Um realojamento que será repartido por vários locais do concelho de Lagos, porque também interessa desmantelar laços e comportamentos. Sociologicamente está comprovado que o ciclo, por exemplo, da pobreza auto-perpetua-se e é difícil haver uma transformação a não ser com uma intervenção social directa. E como esse há muitos mais ciclos a romper. Fico a pensar. Dizem-me que a maioria dos moradores deseja mudar-se. Procuro saber se houve iniciativa de entender as ligações dos residentes ao mar e às tradições piscatórias. Não encontro resposta. Pelos vistos, isso não é relevante como não parece ser relevante o significado deste bairro na história da cidade.
Faz-me muita confusão como é que se decide destruir espaços que fazem parte da história recente de Lagos, do seu imaginário colectivo e do ideário da Revolução de 25 de Abril. Será este argumento medíocre? Será polémico? Será porque não interessa ter testemunhos de uma experiência de povoamento genuinamente popular? Cá para mim, isso chateia muita gente e a mim perturba-me a destruição do bairro em prol de uma promissora valorização da frente marítima.
Faço novamente um esforço de relacionação de factos. O Bairro 25 de Abril é parte dessa frente marítima desde 1974. É feio? É indigno de condições de habitabilidade? É um gueto social onde a comunidade se fechou em si mesma? Pois, há aqui muita verdade mas nenhuma destas verdades justifica a aniquilação total de um património histórico de comunitarismo popular. No mínimo, a vida deste bairro devia estar documentada etnograficamente (para além dos dois documentários já realizados, um em 1976 de António Telles da Cunha, outro em 2006 por Pedro Sena Nunes). O património histórico, entendo eu, não é apenas edifícios, estatuária ou artefactos, é também a vivência das gentes, os feitos, os desafios, as crenças. Sim, as crenças, porque tudo isto começou pela crença de uma vida melhor para todos.
Franzo o sobrolho, respiro fundo e penso em voz alta: será tarde demais? Não será que ainda vamos a tempo de recuperar, recriar e perpetuar este Bairro que, graças à sua história, nos possibilitou a inesquecível canção de Zeca Afonso, “Os índios da Meia-Praia”?! Fico então mais animada ao sentir a tal crença que nos faz mover.
Teresa Teófilo
27/08/2009
5 Comentários»
Excelente artigo.Parabens.Nota-se uma defensora da sua terra e das suas gentes, dos seus costumes, patrimonio e tradicoes.Um beijo Teresa.Fernando Cartaxo.
Parabéns, partilho desta opinião, só que realmente ao tentá-la transmitir a outras pessoas, amigos e outros, tenho sempre dificuldade em mostrar o valor das tradições, vivências e lembranças que estão presentes no Bairro 25 de Abril. Lagos tem a ganhar com a sua recuperação, remodelação (?), preservação! Lagos tem a ganhar com a sua multi-culturalidade, que não se faz apenas no guetto inglês na Luz, mas também com os Índios da Meia-Praia! Para mim, a Meia-praia já não será a mesma sem o Bairro 25 de Abril.
excelent posting! relevant to the research
participatory architectures
https://www.zotero.org/paularoush/items/collection/1082859






acho um pouco despropositado dizer as pessoas que elas nao podem sair.
acima de tudo, quem lá vive sabe o que quer. é muito fácil escrever umas coisas e invocar uma revolução com meio século, mas então desafio-a a ir viver para lá…
Eu vivo! há mais de 22 anos e não me queixo… tenho mais qualidade e vida que maioria das pessoas! Mas nós os indios que vocês acham retrogados adoramos isto!
E por mais se diga que queremos ir embora eu conheço cada pessoa daquele bairro e garanto-vos ” ninguém arreda pé” e eu não aconselho ninguém a desafiar esta gente porque da ultima vez que “cutucaram as bestas com vara curta” meia cidade de Lagos parou mas não tomaram atenção ao aviso! J.O faço um desafio … venha conhecer-nos de perto e depois diga-me que acha justo que se destrua algo tão único!